Seu Edí
por Larissa Dardengo – lari.fdgo@gmail.com
A primeira vez que o vi foi um dia de muito sol, era mais de três da tarde e provavelmente ele estava ali para fugir um pouco do calor, tinha a aparência de um homem que vive na rua, só mais tarde eu viria saber que se chama Edí Fernandes, segundo ele próprio.
Não é com orgulho que confesso, mas se não fossem as coisas que aquele homem falava alto e para ninguém eu não o teria notado ali, sentando naquele banquinho no ponto de ônibus.
Ele era, quer dizer ele é, bem negro, de um quase anil, jovem, não chegando aos 40 anos, cabelos crespos, nariz arredondado e de olhos imensamente brancos, usava roupas sujas, mas não rasgadas e calçava um par de sandálias destoados, uma azul bem clarinha e uma outra preta e tinha junto de si um saco cheio de coisas.
Ali, naquele ponto de ônibus, ele defendia uma teoria. Eu juro que algumas vezes conseguia ver o ser imaginário com quem ele conversava, de tão convincente que era seu diálogo. Edí falava pro povo, pras pessoas aglomeradas no fiapo de sombra produzida pelo abrigo do ponto, falava pra quem quisesse ouvir.
Algumas pessoas o observavam bem de frente, sem nenhum pudor em “reparar o outro”, outras se esquivavam e tentavam notá-lo sem que ele pudesse notá-las . Quando alguém ria de um dos seus comentários, ele não se deixava intimidar, não se sentia ridículo, Edí (que nome para conceder intimidade a estranhos) dava uma gargalhada enorme e dizia com um sorriso largo: “você concorda comigo não é mesmo?”. Eu vi nele uma pessoa realmente livre, sem vergonha de se mostrar, uma que senhora estava ao meu lado comentou: “só os loucos são livres para falar assim”, muito esperto da parte dela, e totalmente verdadeiro.
Mas voltando ao Edí, meu receio bobo não me deixou sentar ao lado dele e gastar algumas palavras. Eu não sou louca, não sou livre e sou completamente tímida. Eu preferi ficar dois passos pra trás, numa distância de total observação.
E o seu discurso tinha apenas um único objetivo: sua defesa, sua exaltação. Ninguém ali ousaria dizer nada, mas o Edí sabia que na sociedade de hoje não havia lugar para um homem como ele, na verdade pouco importava a sociedade, Edí sentia mais era por não haver lugar para ele no coração de nenhuma mulher.
Se dizia um homem bom, sem sorte é verdade, pois olha só o que a vida lhe fizera: Fizera dele pobre. Sem vícios – “não tenho vício nenhum, não bebo, não fumo, meu vício é me encantar pela morena e não ser correspondido”. Falava de esperanças, nas palavras dele “pooo minha gente, eu ainda sou um broto”, confesso que nessa hora eu ri, não pelo auto-elogio, mas pela gíria em si, dizer-se broto ou chamar alguém de broto é algo que me provoca riso.
Pois bem, Edí era um broto e podia muito bem arrumar uma moça cheia de dinheiro que lhe tirasse daquela vida. “Como não minha gente? Não tem por aí esses homens cheios de dinheiro que se apaixonam por mulheres pobres e melhoram a vida delas?”. Porque “eu sou homem bom, me arruma uma casa, me veste direitinho, não se preocupa, eu sou fiel”. Uma menina riu alto e logo Edí se mostrou galanteador: “Não é princesa? Casar comigo é não correr risco de chifre”.
O Edí é uma figura. É uma pena eu não ter ficado mais por ali, por pouco eu não perdi meu ônibus envolvida nas peraltices de suas conversas.